Comprei ontem. Acabei hoje. Li todo. Já Não Se Escrevem Cartas De Amor, de Mário Zambujal. “Um irrequieto enamorado na Lisboa dos anos 50″ é-nos apresentado como narrador que fala, de permeio às suas aventuras amorosas, como eram as vivências do quotidiano em Portugal, durante o Estado Novo. Recomendado.
Agenda Cultural

Eunice Munõz, em palco no São João de 7 a 31 de Janeiro de 2010.
Opiniões – Clara Ferreira Alves
Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido.
Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, desde o 25 de Abril distribui casas de RENDA ECONÓMICA – mas não de construção económica – aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a “prostituir-se” na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos. Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora contínua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido.
Para garantir que vai continuar burro o grande cavallia (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades. Gente assim mal formada vai aceitar tudo e o país será o pátio de recreio dos mafiosos.
A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca. Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo “normal” e encolhem os ombros.
Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada. Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas Consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.
Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são “abafadas”, como se vivêssemos ainda em ditadura. E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade. Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém quem acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?
Vale e Azevedo pagou por todos?
Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?
Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?
Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?
Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?
Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?
Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma. No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.
E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?
E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente “importante” estava envolvida, o que aconteceu? Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.
E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente “importante”, jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?
E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?
O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.
E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?
E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.
Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.
Ninguém quer saber a verdade.
Ou, pelo menos, tentar saber a verdade. Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os “senhores importantes” que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.
Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.
Este é o maior fracasso da democracia portuguesa.
Clara Ferreira Alves – “in Expresso”
Exposição do Mundo Português
O pretexto para a Exposição do Mundo Português foi o duplo centenário ocorrido em 1940: o oitavo centenário da fundação de Portugal (1140) e o terceiro centenário da restauração de Portugal (1640). As comemorações centenárias constituíam, pois, excelente oportunidade para reforçar a vertente nacionalista que ideologicamente convinha ao salazarismo, rezava assim o apelo da comissão executiva inserto nos jornais que assinalaram o início das comemorações: “Nenhum Português deixará de sentir-se orgulhoso ao comemorar, nesta hora solene para a Família portuguesa, os oito séculos de existência histórica da Nação”. Ao mesmo tempo – o que era uma “coincidência” de somenos importância -, ostentava-se para o interior e para o exterior do país uma imagem de paz, tranquilidade e até de euforia colectiva num momento em que a Segunda Guerra Mundial assolava a Europa. Uma Europa a cujos problemas e divisões Portugal parecia alheio.
De um ponto de vista propagandístico, pode dizer-se que a Exposição do Mundo Português foi um dos momentos cimeiros desse esforço de exaltação nacional. No Restelo, lugar simbólico de onde haviam partido as caravelas, ergueram-se vários pavilhões comemorando os momentos históricos que decisivamente tinham contribuído para a fundação e consolidação do Império Português: a Fundação, os Descobrimentos, a Colonização, etc. Para Lisboa, centro e cabeça do Império, convergiam as atenções de um país gradualmente inebriado por iniciativas e cerimónias de tom geralmente pomposo: cortejos, serviços religiosos, desfiles alegóricos, discursos, congressos (como o Congresso do Mundo Português), actos solenes como o hastear da bandeira da Fundação lançada pelo cardeal Cerejeira. O facto é que as comemorações centenárias e a Exposição do Mundo Português congregaram, como nunca antes acontecera, os esforços de intelectuais e artistas ligados ao regime (António Pacheco, Cottinelli Telmo, Manuel Múrias, Júlio Dantas, Duarte Pacheco, Raul Lino, Reinaldo dos Santos, etc.), intelectuais e artistas que consagraram imagens e palavras mágicas para a ideologia e para a cultura do regime: “Raça”, “Pátria”, “História”, “Heróis” ou “Império”.
Ano Novo Vida Nova
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
Shopia de Mello Breyner Andresen, 1974
Penso que este poema é o melhor para começar as publicações aqui no blog, neste novo ano de 2010 que agora começa! Que ele [o ano] seja o melhor, o mais fantástico, o mais cheio, o mais positivo possível…
Shopia de Mello Breyner Andresen
Shopia de Mello Breyner Andresen – Dados Biográficos
Nasceu no Porto, na Quinta do Campo Alegre em 1919
→ Pai: João Henrique Andresen (descende do Avó João Henrique, Dinamarquês que chegou ao Porto no séc. XIX. Dedicava-se aos negócios da navegação e dos vinhos
→ Mãe: Maria Amélia de Mello Breyner (família aristocráta)
- Sophia aprendeu poesia com o avô materno, mesmo antes de saber ler
- Estudo dos 7 anos até aos 17 anos no Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto
- Aos, 12 anos já escrevia poesia
- Passava as férias grandes na Quita da Granja
- Entra para a Faculdade de Letras de Lisboa, para estudar Filologia Clássica
- Regressou, ao Porto poucos anos depois sem concluir o curso
- 1940 – Publica os seus primeiros poemas na Revista “Cadernos de Poesia”
- 1944 – Publica o seu 1º livro “Poesia”
- Casou com Francisco Sousa Tavares, e vai viver para Lisboa, para a Travessa das Mónicas
- Teve cinco filhos
- 1964 – Prémio “Sociedade Portuguesa de Escritores” e “Livro 6º”
- Escreveu poesia, contos e fez traduções
- Faleceu em 2004, com 85 anos.
Primeiro Post do Ano 2010
Primeira publicação deste ano, como ensejo se um futuro melhor.
Feliz 2010
Desejo a todos os poucos visitantes deste cantinho cibernautico um Feliz 2010. Que todas as coisas boas deste ano que agora chega ao fim se multipliquem. Paz, Amor, Serenidade e Realização Pessoal são os meus mais sinceros desejos!

Ainda Bem Que O Natal Acabou

Ainda Bem Que O Natal Acabou
Ainda bem que o natal acabou
logo que soaram as doze
descolei os lábios da mesa
vomitei as doçarias todas
para cima das notícias
que anunciavam a morte
algures onde o natal
é regado com sangue
e as rolhas das garrafas
são tiros cegos e certeiros
matam velhos e crianças
em natal ou em belém
para o ano haverá mais
se a dor aguentar até lá
nós aqui e eles no inferno
uma data é uma data
e é preciso comemorá-la
com sangue e com lágrimas
um dia os meus lábios
ficarão para sempre
agarrados à toalha de linho.
Carlos Alberto Machado
A Realidade Inclinada, Averno, 2003