Filipe Magalhães

29 Outubro 2010

A encenação durante o período do Estado Novo

Filed under: História — Filipe Magalhães @ 20:57

                No ano de 1933, entrou em vigor uma nova encenação da sociedade portuguesa: o Estado Novo, em que “rigidez”, “hostilidade” e “ditadura” eram sentimentos cada vez mais comuns entre a população.

                No entanto, seria esta sociedade tão perfeita como os seus governantes a pintavam? Não, não era. E porquê? Por causa dos escândalos que vinham surgindo de forma exuberante na sociedade, através da troca de galhardetes que se ouviam, em viva voz, no Estoril. Desde escândalos ligados à homossexualidade, à traição nos matrimónios, às “festas” de prostituição com menores e às uniões pouco convencionais, que juntavam estratos sociais que, decididamente, não se deviam mesclar. Estes escândalos, inevitáveis, estavam nos antípodas do que se desejava para um Portugal calmo e tranquilo, pois resultam da opressão feita à população e à rigidez a que estavam submetidos – era a forma da população ripostar.

                Em relação à primeira situação exposta, relativa ao assassinato de um homossexual, o governo de Salazar tentou a todo o custo abafar o escândalo para que o ideal de família perfeita não fosse posto em causa. Estas “orgias homossexuais” em nada incentivavam a procriação, que devia ser objectivo fundamental de todas as famílias ditas “normais”. Este tipo de relações era também condenado pela Igreja, pois ia contra aquilo que professava ao povo de todo o mundo. Durante a realização de um dos muitos “Serões de Amizade”, em 1952, no palacete da família Burnay, em Cascais, algo correu mal: Carlos Burney fora encontrado morto. Para abafar a situação, porque, para além desta morte, era necessário explicar também o porquê da “reunião” de um elevado número de homens para um “serão de amizade”, contrariando a verdade, o governo de Salazar apresentou como causa da morte do anfitrião o suicídio. Por meios científicos sabia-se (e sabe-se!) que essa “verdade” não era verdadeira, mas era imprescindível desviar as atenções de tamanho escândalo. Para o ajudar, Salazar contou com o apoio da Censura, que encetou todos os esforços para garantir a confidencialidade de qualquer pormenor mais “macabro” do caso. Mais uma vez, inequivocamente, a liberdade de escolha (sexual, neste caso específico), de pensamento e acção do povo português estava comprometida, com um único fim, bastante preciso: não denegrir a imagem do Estado.

                No segundo caso, a coação é, também, perfeitamente visível. A família de Jácome Correia tentou, desesperadamente, impedir a venda/ distribuição da sua autobiografia, por ser reveladora de uma “Vida de Vagabunda”. Aqui, está, naturalmente, em causa o bom nome a aparência de uma família ultraconservadora, que sairia altamente prejudicada com este livro. No entanto, esta proibição de venda da autobiografia resultou no efeito contrário ao desejável: aguçou a curiosidade do povo, já que esta história abalava toda a estrutura social açoriana e lisboeta, tento repercussões por todo o País, como de facto aconteceu. Numa segunda parte do livro, publicada dezoito anos mais tarde, foram revelados pormenores avassaladores, que deixaram a sociedade em alvoroço: a escritora não se coibiu de “chamar as coisas pelos nomes”. Foi, assim, lançada mais uma vez lenha para uma fogueira prestes a explodir.

                A terceira situação volta-se para os meandros da pedofilia, com raparigas que compreendem idades inferiores a quatorze anos. Naturalmente que este caso não foi alvo de grandes investigações policiais por se concentrar em nomes de relativa importância tanto para a sociedade portuguesa, como para o governo do próprio Salazar. A prostituição era, e é, uma infidelidade matrimonial que, naquela época, tal como hoje, encontra uma aderência superior ao espectável. Indissociável deste fenómeno acaba por estar a pedofilia, abordada mais concretamente nesta terceira narrativa. Tanto a prostituição como a pedofilia vão contra os princípios morais subjacentes ao casamento católico em que se jura fidelidade até à morte. Assim, não interessava, de todo, a Salazar ver os nomes dos seus colaboradores mais directos envoltos nestes escândalos. Neste contexto, fica a certeza de que tais infracções não ficavam impunes, pois eram resolvidas internamente. Torna-se pertinente colocar aqui uma questão, que, muito provavelmente, ficará por responder: Se até mesmo os colaboradores mais directos de Salazar prevaricavam, talvez até o próprio, o que esperar do povo? José Gonçalo da Cunha Sottomayor Correia de Oliveira, colaborador de Salazar, monárquico tradicionalista e católico fervoroso, foi apontado como principal organizador destas caçadas “À Lolita”. Católico? Fervoroso? Avaliando pelas atitudes demonstradas, parece-nos que “Não dá a bota com a perdigota”. Temos aqui mais um exemplo de uma “outra face da sociedade de Salazar”, perfeitamente imperfeita, passamos a redundância.

                Por fim, deparamo-nos com a tradicional problemática da condição social, determinante de paixões, amores e casamentos. Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha de Eduardo Coelho, casada com Alfredo da Cunha vivia um casamento de fachada, para manter a sua condição social. Com diz Luís de Camões “Amor É Fogo Que Arde Sem Se Ver” e ditaram as regras do jogo amoroso que Maria Adelaide se apaixonasse por Manuel Claro, seu motorista, vinte anos mais novo. Fazendo a ponte desta situação com a actualidade, a atitude de Adelaide seria minimamente entendida, pese muito embora o tradicionalismo e o conservadorismo, decorrendo daí, muito provavelmente a não-aceitação. Contudo, face à luz da sociedade em que viveu foi condenada pelo marido e pela alta sociedade por ter abandonado as suas obrigações primárias, enquanto elemento do sexo feminino: o papel de mãe e de mulher, para fugir com “um rapaz modesto de vinte anos”. Para vermos até que ponto vai a frivolidade daquela sociedade, tal atitude era justificável se praticada pelo homem. Enquanto seres pensantes que somos, decorre desta atitude um único pensamento: machismo exacerbado. Era outra das características perfeitamente veiculadas pelo Antigo Regime. Contudo, há que ver que nesta história não existem pormenores recônditos, por alcançar. Estão todos à mostra de quem os quer ver, muito simplesmente porque esta história está deslocalizada da era de Salazar, não tendo tido o privilégio de “travar amizade” com a Censura. Depois de tudo o que passou, lê-se nas palavras de Vera Moura que Maria Adelaide “mantinha a dignidade”, abrindo um precedente na história feminina: uma Mulher não desistiu de si, devido à inferiorização sistematizada que infligiam às mulheres. Maria Adelaide, um exemplo para mulheres que lhe seguiram, pela sua coragem e determinação em “seguir-se”, diz Maria Elisa Perez “morreu felicíssima”.

                Ao analisar esta reportagem, apresentam-nos, caso a caso, uma comparação com o que as pessoas postas em foco faziam “de dia” e “à noite”. A comparação das informações é surreal. Ao lê-las, temos a perfeita sensação que Portugal tinha duas sociedades bastantes distintas, ou mais literariamente, se preferirmos, duas faces: uma, mais diurna, conservadora inculcadora dos valores de família e da religião católica e ultraconservadora; a outra, nocturna era palco de orgias gay, de consumo de drogas, actividades pedófilas e adúlteras. Era também durante a noite que os valores religiosos eram postos em causa: eram as horas daquilo que ninguém podia ver. Estas são, afinal, “As Histórias que todos queriam esquecer”.

Filipe Magalhães, 2010.

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